1917
A Queda do Gigante: A Revolução de Fevereiro de 1917 e o Fim dos Czares
Para entender como o Império Russo desmoronou, você precisa imaginar o cenário de São Petersburgo (que na época havia sido rebatizada de Petrogrado) no inverno de 1917.
O país estava há três anos atolado na Primeira Guerra Mundial. Milhões de soldados russos estavam mortos ou mutilados. Nas cidades, a temperatura chegava a 30 graus negativos. Não havia carvão para aquecer as casas e as mulheres passavam a noite inteira em filas quilométricas na neve apenas para conseguir um pedaço de pão que, muitas vezes, acabava antes de chegar a vez delas.
O czar Nicolau II estava longe, no front de batalha. Na capital, o clima era de puro desespero. O barril de pólvora estava cheio. Só faltava alguém acender o fósforo.
I. O Fósforo: O Dia Internacional das Mulheres
A revolução que derrubou o maior império da Terra não foi iniciada por generais ou intelectuais barbudos, mas por mulheres operárias famintas e exaustas.
No dia 23 de fevereiro de 1917 (pelo antigo calendário russo, que equivale a 8 de março no nosso calendário ocidental — sim, o Dia Internacional da Mulher), as tecelãs de Petrogrado decidiram cruzar os braços. Elas saíram das fábricas e marcharam pelas ruas congeladas gritando duas coisas simples: “Pão e Paz!”
Os políticos radicais acharam que era só mais um motim de fábrica que não daria em nada. Mas, no dia seguinte, os homens das fábricas metalúrgicas se juntaram a elas. No terceiro dia, a cidade inteira estava paralisada. Cerca de 250 mil pessoas estavam nas ruas. Ninguém trabalhava, os bondes não andavam e o comércio fechou. Era a greve geral.
II. O Momento da Virada: O Exército Muda de Lado
Lembra do Domingo Sangrento de 1905, quando o czar mandou o exército atirar no povo desarmado e a rebelião acabou? Em 1917, Nicolau II tentou fazer exatamente a mesma coisa. Pelo telégrafo, ele ordenou que a guarnição militar de Petrogrado abrisse fogo e acabasse com a greve “amanhã sem falta”.
No começo, alguns soldados atiraram, deixando dezenas de mortos na neve. Mas, à noite, nos quartéis, a culpa bateu. Aqueles soldados não eram a elite militar de antes; eram camponeses fardados que também estavam com fome, e muitos viam suas próprias mães e irmãs nas marchas.
Na manhã do dia 27 de fevereiro, o pormenor que mudou a história aconteceu: o motim. Os regimentos se rebelaram contra seus próprios oficiais. Em vez de atirar no povo, os soldados distribuíram fuzis aos operários, subiram em caminhões com bandeiras vermelhas e foram caçar a polícia política do czar. O Estado simplesmente derreteu.
III. O Trem Pede Passagem: O Fim da Dinastia Romanov
Enquanto a capital pegava fogo, prisões eram abertas e ministros eram presos, o czar Nicolau II tentou voltar de trem para Petrogrado. Ele nunca chegou.
Seu trem foi desviado por ferroviários grevistas e ele ficou isolado em uma estação no meio do nada. Lá, seus próprios generais enviaram telegramas implorando que ele desistisse do trono para tentar salvar a Rússia da anarquia total.
No dia 2 de março de 1917, em um vagão de trem apertado e sem pompa nenhuma, Nicolau II assinou o documento de abdicação. Em questão de uma semana, a poderosa dinastia Romanov, que governava a Rússia há 304 anos, havia virado poeira. O Império Russo não existia mais.
IV. A Euforia e a Ressaca: O “Duplo Poder”
O czar caiu, a censura acabou, os presos políticos (incluindo muitos escritores) voltaram do exílio na Sibéria e a Rússia se tornou, por alguns meses, o país mais livre do mundo. A liberdade de imprensa explodiu.
Mas havia um problema colossal: quem governaria agora? O país se dividiu em um caos chamado Duplo Poder:
De um lado, o Governo Provisório (formado por políticos burgueses e liberais), que queria transformar a Rússia numa democracia ocidental, mas cometeu o erro fatal de manter o país lutando na Primeira Guerra Mundial.
Do outro lado, o Soviete de Petrogrado (um conselho formados por operários e soldados socialistas), que controlava as ruas, as ferrovias e as armas, e só queria saber de pão e paz imediata.
Essa tensão entre os liberais de terno e os operários armados pavimentaria o caminho para Lenin voltar do exílio, derrubar tudo em Outubro e instaurar a União Soviética.
Guia de Leitura: A Febre de 1917
A Revolução de Fevereiro gerou uma explosão de jornais, panfletos, diários e poesias. Os intelectuais russos viveram meses de euforia misturada com o terror do colapso. Para sentir essa febre, aqui estão as leituras essenciais:
O Jornalista Indignado: “Pensamentos Intempestivos” (Máximo Gorki)
O que você vai encontrar: Gorki era o grande herói do povo trabalhador, mas, curiosamente, ele ficou aterrorizado com o rumo sombrio da revolução. Esta obra é uma coletânea de crônicas de jornal escritas em 1917. Ele celebra a queda do czar, mas ataca brutalmente a violência cega, a ignorância das massas e o autoritarismo de Lenin que já começava a dar as caras. É a voz da razão tentando gritar no meio de um furacão.
O Poeta em Transe: “A Intelligentsia e a Revolução” (Alexander Blok)
O que você vai encontrar: Um ensaio arrebatador de um dos maiores poetas da Era de Prata russa. Blok descreve o ano de 1917 não como um evento político, mas como uma “tempestade cósmica”, um evento quase místico. Ele pede que os artistas russos parem de reclamar da falta de conforto e passem a “escutar a música da Revolução”, aceitando a destruição do velho mundo para o nascimento de algo novo.
O Conservador Horrorizado: “Dias Malditos” (Ivan Bunin)
O que você vai encontrar: O diário visceral do primeiro escritor russo a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Bunin era um aristocrata conservador e, para ele, 1917 não foi uma libertação, mas sim a morte da civilização russa. Ele escreve com repulsa e desespero sobre a sujeira nas ruas, os operários armados e o fim da cultura refinada de Tolstói e Pushkin. É o retrato de alguém assistindo ao seu próprio mundo ser assassinado.

