1917
O Golpe de Mestre: A Revolução Bolchevique e o Fim do Velho Mundo (Outubro de 1917)
Após a queda do czar Nicolau II em fevereiro de 1917, a Rússia estava embriagada de liberdade, mas à beira do colapso. O poder estava dividido (o famoso “Duplo Poder”): de um lado, os engravatados do Governo Provisório, que queriam uma democracia estilo francesa; do outro, os operários e soldados armados nos Sovietes (conselhos populares).
O Governo Provisório cometeu um erro suicida: decidiu manter a Rússia lutando na Primeira Guerra Mundial. O povo continuou morrendo nas trincheiras e passando fome nas cidades. O caos era total. Faltava apenas uma liderança para capturar essa fúria. E essa liderança estava a caminho, dentro de um trem fechado.
I. O Trem Blindado e as Teses de Abril
O líder da ala radical dos comunistas russos (os Bolcheviques) era Vladimir Lenin. O problema é que Lenin estava exilado na Suíça.
Aqui entra um dos maiores pormenores táticos da história: o exército alemão, lutando contra a Rússia na guerra, teve uma ideia genial. Eles colocaram Lenin em um trem “blindado” (selado, para que ele não fizesse propaganda na Alemanha), cruzaram a Europa e o despejaram na Rússia, como se ele fosse um vírus letal criado para destruir o inimigo por dentro. E funcionou perfeitamente.
Ao chegar na Estação Finlândia em Petrogrado, em abril de 1917, Lenin chocou até mesmo os seus próprios aliados. Ele subiu em cima de um carro blindado e lançou suas “Teses de Abril”. Ele disse que não haveria nenhum apoio ao Governo Provisório burguês. O seu slogan era hipnótico, simples e exatamente o que o povo queria ouvir: “Paz, Pão e Terra” e “Todo o Poder aos Sovietes!”.
II. O Erro de Kerensky e a Guarda Vermelha
No verão de 1917, o governo russo passou a ser liderado por Alexander Kerensky, um político vaidoso que tentava agradar a todos e não agradava ninguém.
Quando um general conservador tentou dar um golpe militar de direita para restaurar a ordem (o Caso Kornilov), Kerensky entrou em pânico. Sem tropas confiáveis, ele fez a única coisa que não deveria ter feito: abriu os arsenais de armas e distribuiu fuzis para os operários radicais e para os Bolcheviques defenderem a cidade.
O golpe de direita fracassou, mas agora os Bolcheviques tinham duas coisas: a simpatia do povo (por terem “salvo” a capital) e milhares de armas nas mãos da sua milícia, a chamada Guarda Vermelha. Leon Trotsky, o brilhante estrategista e braço direito de Lenin, começou a planejar o ataque final.
III. O Outubro Vermelho: A Cirurgia Fria
Ao contrário do que os filmes soviéticos posteriores tentaram mostrar, a Revolução de Outubro não teve multidões heroicas trocando tiros nas ruas. Foi um golpe metódico, frio e sem quase nenhum derramamento de sangue inicial.
Na noite de 24 para 25 de outubro de 1917 (novembro no nosso calendário), sob as ordens de Trotsky, pequenos grupos armados da Guarda Vermelha se espalharam silenciosamente por Petrogrado. Eles não atacaram quarteirões; eles tomaram a “central nervosa” da cidade:
Cortaram os cabos dos telefones e telégrafos.
Tomaram as pontes, estações de trem e usinas de energia.
Bloquearam as estradas.
Quando a cidade acordou, o país já estava nas mãos de Lenin. O único lugar que resistia era o Palácio de Inverno, onde os ministros de Kerensky estavam escondidos (Kerensky já havia fugido em um carro roubado da embaixada dos EUA).
No pormenor histórico, a tomada do palácio foi quase cômica. O cruzador Aurora deu um tiro de festim (sem bala) para assustar. Os guardas vermelhos entraram no palácio não quebrando portas, mas por entradas laterais que haviam sido deixadas destrancadas. Eles prenderam os ministros atônitos. Lenin subiu ao pódio do congresso dos sovietes e declarou: “Passaremos agora à construção da ordem socialista.”
IV. A Literatura Sob a Foice e o Martelo
Para os escritores russos, 1917 foi o juízo final. A Intelligentsia (os intelectuais) havia passado um século inteiro pedindo uma revolução nos seus livros, mas quando a revolução real chegou — suja, autoritária e violenta — muitos entraram em desespero.
O Cânone Russo se partiu em três caminhos trágicos:
Os Exilados (Os Emigrados Russos): Autores como Ivan Bunin (que vimos no texto passado) e a família do jovem Vladimir Nabokov fugiram do país em navios lotados, perdendo tudo, para escreverem em Paris ou Berlim com uma nostalgia doída da Rússia que não existia mais.
Os Entusiastas: Escritores como o futurista Vladimir Maiakovski viraram os “megafones” do Partido, criando a nova estética soviética (o construtivismo), acreditando fervorosamente que estavam construindo uma utopia.
Os Exilados Internos: Gigantes como a poetisa Anna Akhmátova se recusaram a sair da Rússia, mas também não se curvaram a Lenin. Eles viveram décadas de censura, pobreza e viram seus amigos e maridos serem fuzilados pela polícia secreta de Lenin (a Tcheka) e, mais tarde, de Stalin.
Guia de Leitura: A Ressaca da Revolução
A literatura que nasce imediatamente após Outubro de 1917 é brutal, cínica e desesperada. Esqueça os bailes de Tolstói; agora a regra é a guerra civil e a poeira. Aqui estão as obras que explicam o que aconteceu com a alma russa:
O Apocalipse Místico: “Os Doze” (Alexander Blok)
O que você vai encontrar: Escrito em 1918, é o poema mais polêmico da época. Blok descreve doze guardas vermelhos armados patrulhando as ruas congeladas de Petrogrado, atirando em burgueses e cães sarnentos. O detalhe que chocou todo mundo? No final do poema, Blok revela que quem está marchando na frente desses doze “apóstolos” assassinos, liderando a revolução no meio da nevasca, é ninguém menos que Jesus Cristo. É a tentativa bizarra de santificar o terror bolchevique.
O Realismo Sangrento: “O Exército de Cavalaria” (Isaac Babel)
O que você vai encontrar: Uma obra-prima de contos interligados. Isaac Babel, um judeu intelectual e de óculos, foi trabalhar como correspondente de guerra junto com a brutal e antissemita cavalaria cossaca soviética durante a guerra civil que se seguiu a 1917. O livro é uma pintura de contrastes: a prosa linda e refinada narrando as maiores atrocidades imagináveis. É o choque entre as belas ideias de Karl Marx e a realidade de cortar gargantas na lama.
A Previsão do Pesadelo: “Nós” (Ievguêni Zamiátin)
O que você vai encontrar: Zamiátin era um bolchevique convicto que ajudou a fazer a revolução, mas, quando Lenin tomou o poder, ele percebeu rapidamente que a “liberdade proletária” iria virar uma ditadura pior que a do czar. Escrito em 1920 (e banido instantaneamente), este é o primeiro grande romance distópico do mundo. Ele inspirou Admirável Mundo Novo e 1984. O livro retrata um Estado futuro onde as pessoas não têm nomes, apenas números, e tudo é feito de vidro para que a polícia do Estado possa observar todos o tempo todo.

