1918–1922
Vermelhos contra Brancos: A Guerra Civil e o Batismo de Sangue da União Soviética
Se você leu nosso último texto, viu que Lenin e os Bolcheviques tomaram o poder em Outubro de 1917 com um golpe cirúrgico e quase sem derramar sangue. Parecia fácil, não é? Mas a verdadeira tragédia russa estava apenas começando.
Derrubar o governo foi a parte simples; governar o maior país do mundo era o pesadelo. Assim que Lenin sentou na cadeira do poder, todos os inimigos dos comunistas se uniram para tentar destruí-los.
A Guerra Civil Russa (1918–1922) foi um dos conflitos mais cruéis e esquecidos da história moderna. Foi uma guerra sem regras, que matou entre 7 e 12 milhões de pessoas, não apenas por balas, mas pela fome, frio e epidemias de tifo. Foi aqui, na lama e no desespero, que a União Soviética forjou sua alma autoritária.
I. Quem é Quem: O Ringue da Guerra Civil
A imagem que temos de guerras costuma ser de dois exércitos de uniformes diferentes lutando em um campo aberto. A Guerra Civil Russa não foi assim; foi um caos onde vizinho matava vizinho e cidades mudavam de mãos três vezes na mesma semana. O conflito se dividiu basicamente em dois grandes blocos:
O Exército Vermelho (Os Bolcheviques): Liderados por Lenin e brilhantemente organizados por Leon Trotsky. Eles controlavam o coração do país (Moscou e Petrogrado) e lutavam pela sobrevivência da revolução comunista. A sua grande vantagem era a disciplina de ferro e a promessa de dar terras aos camponeses.
O Exército Branco (A Oposição): Este não era um grupo unido. Era uma aliança bizarra e desesperada formada por generais do antigo czar, monarquistas, liberais burgueses, e até forças estrangeiras (Estados Unidos, Inglaterra, França e Japão mandaram tropas para ajudar a esmagar o comunismo). O grande problema dos Brancos é que eles se odiavam quase tanto quanto odiavam os Vermelhos, e não tinham um projeto claro para o país.
II. O Terror Vermelho, o Terror Branco e o Fim dos Romanov
Nesta guerra, não havia “mocinhos”. Ambos os lados cometeram atrocidades indescritíveis, inaugurando a era do terror como política de Estado.
Os Brancos enforcavam camponeses que simpatizavam com Lenin e faziam pogroms (massacres) contra comunidades judaicas. Em resposta, Lenin oficializou o Terror Vermelho: a polícia secreta comunista (a Tcheka) recebeu carta branca para fuzilar sem julgamento qualquer pessoa que fosse considerada “burguesa”, “contrarrevolucionária” ou que simplesmente usasse óculos e tivesse mãos macias (sinal de que não era um trabalhador braçal).
O pormenor mais simbólico e brutal desse terror aconteceu em julho de 1918. A família imperial (o ex-czar Nicolau II, sua esposa e seus cinco filhos) estava presa no porão de uma casa na Sibéria. Com medo de que o Exército Branco resgatasse o czar e o usasse como símbolo, Lenin ordenou a execução. A família inteira foi fuzilada e esfaqueada no porão, e seus corpos foram jogados em uma mina abandonada. Era o recado de Lenin: não há caminho de volta.
III. O Comunismo de Guerra e a Fome de 1921
Para alimentar o seu Exército Vermelho, Lenin instaurou o “Comunismo de Guerra”. O governo proibiu o comércio privado e mandou soldados armados para o campo com a ordem de confiscar toda a colheita dos camponeses.
O resultado foi uma catástrofe econômica. Sem incentivo para plantar (já que tudo seria roubado pelo governo), os camponeses pararam de trabalhar. Isso gerou a Grande Fome de 1921, onde cerca de 5 milhões de russos morreram de inanição. Histórias de canibalismo se tornaram comuns no interior do país.
No final, os Vermelhos venceram a guerra. Em 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi oficialmente fundada. Mas o país estava em ruínas, a economia não existia, e a utopia da liberdade operária havia se transformado em uma ditadura militar controlada por um único partido.
Guia de Leitura: A Literatura nas Trincheiras
A Guerra Civil dividiu os escritores russos. Alguns fugiram do país, outros lutaram, e outros tentaram apenas não morrer de frio em seus apartamentos. Aqui estão as obras essenciais para entender a alma despedaçada da Rússia neste período:
O Lado dos Derrotados: “A Guarda Branca” (Mikhail Bulgakov)
O que você vai encontrar: Esqueça os panfletos comunistas; este é um olhar compassivo sobre o lado que perdeu. O livro (que é quase autobiográfico) acompanha a família Turbin, intelectuais e monarquistas que vivem em Kiev (Ucrânia) durante o caos da Guerra Civil. A cidade muda de mãos dezenas de vezes entre alemães, nacionalistas ucranianos e bolcheviques. É uma obra-prima sobre pessoas cultas e decentes tentando manter a dignidade e a sanidade enquanto o mundo inteiro desaba ao redor delas. (Um detalhe fascinante: o ditador Stalin amava a adaptação para o teatro deste livro, mesmo sendo sobre os seus inimigos!).
A Destruição da Vida Privada: “Doutor Jivago” (Boris Pasternak)
O que você vai encontrar: Se o começo do romance aborda a Primeira Guerra, o coração do livro de Pasternak bate na Guerra Civil. O médico e poeta Yuri Jivago é sequestrado por uma milícia comunista e forçado a trabalhar para eles no meio das florestas congeladas da Sibéria. O livro é uma defesa apaixonada do indivíduo contra a política de massas, mostrando que nenhuma ideologia vale a destruição da vida íntima, da poesia e do amor.
A Tragédia Épica: “O Don Tranquilo” (Mikhail Sholokhov)
O que você vai encontrar: A continuação da saga dos cossacos. Sholokhov descreve como a Guerra Civil partiu famílias ao meio. Irmãos que dormiam sob o mesmo teto de repente se veem em exércitos diferentes (Vermelhos e Brancos), matando-se na beira do rio Don. É o retrato mais visceral e realista da loucura que tomou conta do interior da Rússia, onde a ideologia importava menos do que o ódio acumulado entre vizinhos.

